quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Lullabies

Estavam terminando de almoçar quando ela despejou 15 anos na cara dele. Ele tentou se esquivar, mas ela não tinha só os anos; também atirou os meses e até os dias felizes que escorriam pelos dedos. Ele correu com a cabeça baixa e fez da geladeira sua trincheira, na desculpa de pegar uma cerveja. Ela o puxou pelo braço sem sucesso, eu só queria que você me escutasse.
Quis voltar atrás, quis sentir aquela dor, com sentimentos mais claros, mas não pôde. Ela falava sem parar e ele não queria mais escutar, seus ouvidos já clamavam por punhos cerrados. Os gritos se tornaram constantes e as acusações mais pesadas, que ele tentava ouvir somente as metades, mas voltavam contra ele quando rebatiam nas paredes: antes caladas, agora também surdas. Ele largou a cerveja e se virou para sair, tapando os ouvidos e ainda sem dizer palavra alguma.
Todos aqueles anos se desesperaram e investiram contra ele, empurrando-o contra a porta da sala. Ele tentou evitar a colisão, mas falhou ao procurar pelo apoio, esquecido ou negligenciado. A cabeça se chocou com uma porta que parecia mais dura que de costume, pensou até em chapisco, tamanho o corte que abriu em sua testa. Ele cambaleou em direção ao banheiro, encostando-se nas paredes, que se faziam escorregadias propositalmente. Com muito esforço, chegou ao banheiro e trancou a porta, deixando os 15 anos em companhia das surdas-mudas mais uma vez.   
Ela continuava a gritar na entrada do banheiro, chutando todos os cacos que conseguia por debaixo da porta. Você não sabe o que é amor. Ele inclinou a cabeça e deixou o sangue escorrer pela testa e, com tudo, descer pelo ralo. O sangue é o amor.
Saiu do banheiro direto para ela. Nós somos um agora, com minhas mãos em volta do seu pescoço, apertando, apertando. Os dois corpos caindo ao chão, o dele sobre o dela, levantando e assentando a poeira ao mesmo tempo. Olhos nos olhos, eu te amo, me desculpa, me desculpa, eu só quero que você sufoque. Os braços se debatiam, as unhas vermelhas perfuravam seu rosto manchado de sangue. Somos carne e sangue. Os dedos chegavam já sem força aos olhos. Queria poder segurar a sua mão. Eu só quero que você sufoque. Eu só quero que você sufoque. Eu, só.

5 comentários:

  1. eu espero mesmo que vc não use sua vida nesses textos! heuheueheuehe
    Achei muito bom! muito sentimento. Quando vc escreve coisas assim eu realmente sinto o que se passa com o personagem.
    O final eu prefiro imaginar que seja algo que não seja o sufocar ruim, se é que vc me entende
    te amo
    Marcela Coelho

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  2. A vida...
    imita...
    a
    morte.

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  3. Que texto mais dramático! O modo que você descreveu...me assustou! Adorei!

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  4. É um texto assustador com certeza, e em todos os sentidos.. Bem escrito. Abraço!!

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  5. O fato de eu sentir alívio qdo acabei de ler, faz de mim um serialkiller em potencial?

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