terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O "nada" é nada mesmo

Costumo vasculhar meu acervo videográfico de tempos em tempos para tentar esbarrar em alguma coisa que passou desapercebida ao primeiro encontro - é impressionante como os nossos olhos não enxergam os pormenores mesmo com a concentração aguçada. Em uma dessas incursões, há poucas horas, deparei-me com uma entrevista do grande Lemmy Kilmister, fundador e líder da banda de rock n' roll - Lemmy não gosta que comparem o Motorhead ao heavy metal - Motorhead. Em um trecho da conversa, Kilmister é perguntado sobre as letras que escreve, se elas representam alguém, algum estado de espírito ou mesmo uma visão de mundo. A resposta é simples, diz muito sobre o Motorhead e a maioria das bandas de rock: "Não procure nada de muito profundo no Motorhead". E Lemmy continua na mesma linha quando a indagação é direcionada ao título de um ábum: "É um nome legal, mas não é nada especial".
Não transcrevo esses trechos como crítica negativa ao Motorhead - o melhor show que verei esse ano - e nem ao rock n' roll - que ocupa grande porcentagem do meu ser -, mas para elucidar uma observação: as pessoas procuram demais nas entrelinhas das músicas.
A munição é limitada para percorrer outros estilos da música, mas disponho de um modesto arsenal para afirmar que o rock não é feito de grandes poetas. Claro, há muitos deles, mas não é difícil dizer que compõem uma minoria. São poucos Lennons para muitos Ramones. Muitas letras querem dizer apenas aquilo que estão dizendo literalmente. Algumas palavras são jogadas nos versos somente para compôr rimas perfeitas. E o que dizer dos hits? 90% deles não querem dizer absolutamente nada de especial.
Perdi muito do encanto adolescente pelo Nirvana - isso não significa que eu não goste mais, eu ainda gosto muito - quando vi o próprio Cobain dizendo que ele colocava palavras em muitas canções só para rimar. É sabido pelos fãs - os verdadeiros - que várias de suas músicas eram autobiográficas, mas muitas continham trechos de pura invenção, ou melhor, adequação. Era necessário rimar. Era necessário pegar. O Nirvana viveu do "grude" de suas músicas - o que não significa que sejam ruins, muito pelo contrário -, como muitas bandas de rock fizeram e fazem.
Vejo uma necessidade em idealizar. O exemplo a ser seguido precisa ser superior, precisa dizer muito falando pouco. As pessoas tendem a fantasiar o ídolo, negligenciando o que envolve o seu trabalho e sua personalidade. O que Lemmy disse não serve apenas para o rock ou para a música, mas para os ícones em geral e seu rebanho de cegos - que não querem ver. Às vezes, o "nada" é nada mesmo. Talvez seja só pela rima.

4 comentários:

  1. Por isso rock'n roll é oiriginal! É apenas festa e diversão, às vezes uma balada pra dramatizar, mas nada que não fale sobre as relações pessoais de um ser humano qualquer. Sem nenhuma pretensão política ou intelectual.

    O rock não quer poesia, nem nunca foi aclamado por isso, o Doors tinha um poeta, mas o que chamava a atenção era o teclado de Manzarek, os arranjos de Krieger e a atuações emblemáticas de seu Poeta frontman. As letras eram boas,claro, mas a presença de palco, em si, superava qualquer coisa, até mesmo o desequilíbrio ébrio do gênio poeta (que era suprimido pelas digressões de percussão de John Densmore)

    Grande mérito do rock'n roll, é sabido, nunca foi letrar sua clientela, e sim, cativá-los com aquilo que sabem de melhor: tocando. Certas vez, Gene Simmons (Gene simmons!!!) disse "astros de rock, se não o fossem, seriam pedreiros ou mecânicos, borracheiros ou sei lá, porque não sabem fazer outra coisa". É um exagero,pois o pink floyd existe, o Dire Straits e o Lynyrd Skynyrd também. Mas um riff de guitarra será sempre mais lembrado do que uma frase de significado universal e profundo.

    O engajamento de algumas bandas de Thrash chega a ser pueril, do punk então...É vergonha alheia.

    E pelo mesmo motivo odeio fãs de música brasileira que impingem em todo conteúdo uma subliminariadade que não existe e que nem eles entendem. O que há demais Zeca Baleiro? Maria Gadú, Los Hermanos? Sem falar do manguebeat...Um monte de porcaria sob o invólucro de música alternativa independente - no início, até que façam sucesso. Isso é culpa da crítica, que tem sido assolada a cada dia que passa, não se pode criticar sob a ameaça de soar depreciativo, vendido, americano...como se valorizaro produto nacional fosse um contrato que assinara, anos antes, em meu batismo.

    Como diria lemmy, fuck the church, fuck the new age, fuck you! We are motorhead, and we play rock'n roll!

    abraço,amigo

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  2. A rima é empolgante. Mas a Rima com significado é fantástica.

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  3. Concordo, hoje há muito Ramones para poucos Lennons. Enfim.
    Muito bom seu blog.

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  4. Caro Laio, reveja seus conceitos em relação a MPB, grandes nomes e pouco conteúdo não são tantos como acha, escute mais atento e verás a diferença.
    TITIO RICARDO

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