Não há vestígios de sujeira. O ar, limpo como deveria. Uma violência reprimida em cada olhar de canto de olho. Delicada e extravagante realidade resumida em um “não” inalterável e num “me desculpe” tolido. As cenas metálicas, os carros velozes. Pedestres inertes. Os mais felizes são os sem esperança. Não há nada fora do lugar e estamos mortos.
Eles dizem coisas sobre dinheiro; não há dinheiro. Há a inabilidade de ser solidário. A miséria escorre nas mãos calejadas, a comida podre dos becos. Excrementos. Dê-me um segundo pra abrir os olhos pra hediondez da realidade. Uma fração, que seja, pra que a cena mais indecorosa mude o Sr. Nulidade, aqui. E ali, também, do outro lado da rua, do país. Dê-me a clareza do epiléptico, o mais sábio de todos os normais. O mundo descobre o seu próprio drama: ser imundo.
Garotos matam idoso a pauladas. Foi ali, na Bahia, do outro lado da parede. E aqui, chuta-se uma mulher no chão porque ela recusou um beijo, um “bom dia”, que seja. Foi aqui, no seu sofá. Conforma-se. É a crença de que em alguma hora o milagre acontecerá e tornará a vida tolerável. A hóstia fantástica toca os lábios e agora estamos bem, completamente mortos. Fisicamente livres. Moralmente encarcerados.
Que haja uma revolução, uma epidemia, uma guerra nuclear. Estamos completamente intactos. Como porcos sem carcaça.
muito bom.
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