Tenho visto muitos blogs por aí que se pretendem ao fazer literário. Aliás, não só na blogosfera, mas em revistas online e demais veículos de publicação na Internet, cuspindo amontoados de palavras travestidos de literatura. Bons tempos aqueles quando reclamávamos dos chatíssimos, mas honestos, fotologs – os diários de fotos que todos os populares tinham para divulgar suas excitantes rotinas.
Pois bem: nunca antes na história deste país tivemos tantos escritores. A circulação de textos é imensa, o que seria louvável se a qualidade acompanhasse o ritmo da produção. Mas as facilidades da tecnologia dão terreno fértil a plantas podres. Parte significativa desses textos se resume a achismos sobre assuntos aleatórios ou relatos de situações banais – é de se levantar as mãos para os céus quando não vem em forma de versos!
Tudo bem publicar suas impressões sobre o amor, o ódio, o Flamengo, a Dilma, a ejaculação precoce do seu namorado. Mas não chame isso de literatura. Literatura não se faz de seu casinho particular.
O cronista, é claro, tem uma conjuntura especial. Ele se utiliza de um evento privado, mas o transfere para a esfera universal, geralmente com uma reflexão interessante. O cronista é um cara que faz tempestade em copo d’água e tem licença para isso.
O que me incomoda nessa era digital é que todo mundo acha que pode ser tudo.
(E antes que os militantes da libertinagem de expressão subam nas tamancas e me acusem de repressão aos direitos individuais: eu sei que você, leitor inteligente, tem perspicácia para entender alguns exageros necessários à finalidade deste texto. Sigamos, então.)
É preciso citar Deleuze para não recorrer aos aparatos censores de muitos sábios da palavra, escondidos em blogs aqui e ali – o “é-assim-porque-sim-e-pronto-acabou”. Para o filósofo, o escritor é alguém que está sempre à espreita. É um observador, um sujeito que se esconde atrás das portas do universo do outro, espaço pequeno, mas não propriedade privada – reforma agrária, já!
Ainda em Deleuze: o escritor escreve para alguém; e esse “para” têm dois sentidos: 1- significa “destino”, a quem o texto é direcionado; 2- “no lugar de”, “por” alguém”. O escritor fala para os incautos, para os reprimidos, para os amargos; são palavras pelos ignorantes, pelos marginais. Pelo próprio autor também, mas nunca apenas.
Portanto, escritor-blogueiro-imaginário, aproveite o feriado próximo para puxar da estante uns bons exemplares de literatura não-particular. Se não os têm em casa, vá à Saraiva mais próxima, você encontrará muita gente interessante. E já que estamos na semana da independência, prefira os nacionais. Sabino, Drummond e Leminski o esperam de braços quase-abertos – eles ainda desconfiam um pouco de você.
Você acabou comigo :D
ResponderExcluirÉ bonito hoje ter opinião sobre tudo: de cocô à bomba atômica. E ainda, rola aquela disputinha entre os pretensos escritores para ver quem é mais "curtido" no FB.
ResponderExcluirNa nossa timeline mesmo, Leandro, temos uns 3 só pra citar... Querendo falar com profundidade sobre futebol, novela, política (dói, inclusive, quando eles tentam), ativismo, e outra miríade de assuntos prontos (acuados) para serem destrinchados por essas famintas mentes.
Todo escritor quer ser lido, isso é óbvio. Mas tem horas que dá vontade de ser cego...
Falou, Schopenhauer.
ResponderExcluir